Durante décadas, o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) serviu como texto fundamental para a psiquiatria, ditando como as doenças mentais são categorizadas, diagnosticadas e tratadas. Mas esta antiga “bíblia” da saúde mental está a enfrentar uma reavaliação crítica. A Associação Americana de Psiquiatria (APA) está considerando revisões abrangentes que poderiam alterar fundamentalmente a forma como os transtornos psicológicos são compreendidos e tratados.
As origens do DSM residem num esforço de meados do século XX para padronizar a terminologia psiquiátrica. Em 1980, com o lançamento do DSM-III, o número de doenças reconhecidas aumentou para quase 300. Esta expansão solidificou o papel do DSM como força orientadora na prática clínica, na investigação e até na facturação de seguros. No entanto, o manual tem sido criticado há muito tempo pela sua falta de rigor científico, com alguns argumentando que as suas categorias não se alinham com a realidade biológica subjacente.
As alterações propostas visam resolver estas questões de longa data. O problema central é que a estrutura actual do DSM assenta em categorias distintas – perturbação depressiva major, perturbação bipolar I, perturbação de stress pós-traumático – enquanto a neurociência e a genética sugerem cada vez mais que estas fronteiras são artificiais. Embora os diagnósticos possam ser confiáveis (vários médicos muitas vezes concordam com eles), eles podem não ser válidos (refletindo verdadeiras diferenças biológicas subjacentes).
A revisão proposta da APA inclui permitir aos médicos maior flexibilidade no diagnóstico. Em vez de forçar um rótulo rígido, os médicos podem descrever um paciente como sofrendo de “depressão” sem especificar o subtipo exato. Isto poderia reduzir a “lista de lavanderia” de diagnósticos que os pacientes às vezes recebem, o que pode nem sempre ser preciso. As revisões também encorajariam os médicos a incorporar factores contextuais – como os sem-abrigo ou condições médicas subjacentes – nas avaliações.
Talvez a ideia mais ambiciosa seja a inclusão de biomarcadores: exames de sangue ou tomografias cerebrais que poderiam, teoricamente, revelar a base física da doença mental. No entanto, isto permanece em grande parte teórico, uma vez que actualmente faltam biomarcadores fiáveis para a maioria das condições. A única exceção é o Alzheimer, que fica na linha entre a psiquiatria e a neurologia.
Os especialistas permanecem céticos. Os críticos argumentam que mexer na estrutura do DSM não resolverá a questão fundamental: a sua dependência de sintomas subjectivos em vez de marcadores biológicos objectivos. A lacuna entre a apresentação clínica e a biologia subjacente permanece vasta, e a esperança de identificar assinaturas genéticas ou neurais claras para distúrbios específicos não se concretizou.
O DSM serve dois propósitos principais: tratamento clínico e pesquisa científica. Embora os investigadores se afastem cada vez mais de categorias de diagnóstico rígidas para se concentrarem em grupos de sintomas mais amplos, os médicos ainda precisam de um sistema para diagnóstico, faturação e cuidados eficazes aos pacientes.
Apesar das críticas, desmantelar o DSM não é uma opção viável. O sistema está profundamente enraizado na infraestrutura de saúde. O objetivo agora é encontrar um equilíbrio entre a validade científica e a utilidade prática, uma tarefa que exige o reconhecimento das limitações do conhecimento atual e, ao mesmo tempo, o aperfeiçoamento do processo de diagnóstico.
Em última análise, o futuro do diagnóstico de doenças mentais reside em colmatar a lacuna entre a experiência subjectiva e a realidade objectiva, um desafio que exigirá investigação contínua, avaliação crítica e uma vontade de adaptação à medida que a nossa compreensão do cérebro evolui.




















