Um livro de memórias até então desconhecido de Shadrack Byfield, um soldado britânico que lutou na Guerra de 1812, foi descoberto nos arquivos da Western Reserve Historical Society em Cleveland, Ohio. A descoberta complica dramaticamente a compreensão histórica de Byfield, revelando um homem cuja auto-imagem mudou radicalmente dependendo do seu público e das suas necessidades. Os historiadores confiam há muito tempo na sua autobiografia de 1840, A Narrative of a Light Company Soldier’s Service, como um relato definitivo da sua vida, mas a obra recentemente descoberta de 1851, History and Conversion of a British Soldier, apresenta uma versão surpreendentemente diferente dos acontecimentos.
As Duas Faces do Soldado
Byfield serviu com distinção durante a Guerra de 1812, sofrendo ferimentos graves, incluindo a amputação do antebraço esquerdo sem anestesia. Ele ficou famoso por recuperar o membro decepado de uma pilha de lixo para enterrá-lo adequadamente – um detalhe que ressalta a brutalidade da medicina militar do século XIX. Seu livro de memórias inicial foi cuidadosamente elaborado para atrair potenciais clientes, retratando-o como um veterano estóico e zeloso. Byfield destacou sua capacidade de adaptação e apoio à família após receber uma prótese de antebraço.
No entanto, o manuscrito de 1851 expõe uma realidade mais sombria e desesperadora. Descreve a dor crónica, as dificuldades financeiras e as indignidades quotidianas de viver com uma deficiência numa sociedade que oferecia pouco apoio aos soldados que regressavam. O forte contraste entre os dois relatos sugere que Byfield adaptou sua narrativa para maximizar a simpatia e o ganho financeiro.
“Na narrativa de 1840, Byfield procurou impressionar os clientes ricos apresentando-se como um soldado zeloso e um veterano merecedor”, explica o historiador de Cambridge Eamonn O’Keeffe, que fez a descoberta. “O livro de memórias de 1851, por outro lado, foi uma história de redenção espiritual, com Byfield traçando seu progresso de pecador rebelde a cristão devoto e arrependido.”
Uma vida além da glória
O livro de memórias posterior não foge de verdades pouco lisonjeiras. Byfield confessa ter abandonado suas funções por expedições de saque e detalha períodos de dívidas e doenças paralisantes. A vida do soldado não foi de reajustes confortáveis, como seu primeiro relato sugeria; foi uma batalha constante contra a pobreza, a dor e a negligência social.
Essa honestidade se estende à sua vida pessoal. Byfield mais tarde se envolveu em uma violenta disputa pelo controle da capela da vila, acusado de agredir um rival com seu gancho protético. Embora nunca tenha sido condenado, o incidente resultou em incêndio criminoso, vandalismo e, por fim, na perda de seu emprego. Em 1856, ele era viúvo e sobreviveu financeiramente.
O Legado Perdido
Byfield publicou um terceiro e último livro de memórias em 1867, intitulado The Forlorn Hope, mas não se sabe da existência de cópias hoje. Ele morreu aos 84 anos em 1874, deixando um legado tão fragmentado e contraditório quanto seus próprios relatos. A redescoberta das suas memórias de 1851 é um lembrete crítico de que as narrativas históricas raramente são monolíticas e que mesmo os relatos mais pessoais podem ser moldados pelas circunstâncias, pela ambição e pelo arrependimento.
Esta nova visão sobre a vida de Byfield fornece uma lente valiosa através da qual podemos examinar os desafios enfrentados pelos veteranos deficientes nas décadas que se seguiram às Guerras Napoleônicas. A descoberta sublinha o sofrimento e a resiliência frequentemente esquecidos dos soldados que regressam do conflito, desafiando noções romantizadas de glória militar.
